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Entrevista – Carlinhos de Jesus “A dança sempre foi minha carta de alforria”

  • 07/09/2017

Inconformado. É assim que está, sem rodeios, Carlinhos de Jesus depois de perder seu filho. Mas o aquariano (e complementar essa informação com “um sonhador” seria, no mínimo, redundante), noveleiro e hiperativo coreógrafo guarda ainda em si a esperança. ”Estamos tristes, mas confiantes na justiça”. E ainda vê um ponto positivo diante de tanto sofrimento: “fiquei admirado com a solidariedade das pessoas. Recebi mensagens de carinhos via twitter, email, torpedo, vindas até do Japão, da França e da Itália. Isso nos faz sentir, de certa maneira, acolhidos”. Para Carlinhos, “não é o Rio de Janeiro que está violento. O mundo está violento”. E sentencia, fazendo referência ao retorno de sua rotina: “o palhaço tem que rir mesmo quando tem vontade de chorar. Eu trabalho com a alegria, e isso acaba sendo uma terapia pra mim. Estou, aos poucos, retomando minhas atividades”. Acompanhado da mulher Rachel Vieira, Carlinhos deixou um pouco a dor para falar da sua história como dançarino, como homem de negócios e como cidadão no mundo. E é claro que a região serrana estaria entre suas memórias...

Magazine Turismo: Ouvimos dizer que você tem um passado na região serrana do Rio, não é? Conta um pouco sobre essa experiência.   

Carlinhos de Jesus: Primeiro, trabalhei – com carteira assinada – em uma fábrica de tecidos chamada D´Olne & Cia., em Petrópolis. Eu era controlador de qualidade; mas isso há muito tempo! Talvez vocês ainda nem fossem nascidos. Eu devia ter uns 18 ou 19 anos, ou seja, há mais de 30 anos. Eu subia e descia de carro todo dia. Quando eu chegava lá, tinha uma prancheta, um cronômetro e um tear à minha espera. O caso é que foi ficando muito cansativo subir e descer todo dia, e eu acabei saindo.
Além disso, fiz o filme “Banana Split” dentro do Quitandinha, também em Petrópolis. Foi uma das primeiras grandes produções que participei. Quando? Pergunta ao meu “pendrive”, a Rachel (risos).  
 

Há pouco tempo, a propósito, você retomou seu contato com o interior do estado e participou do “Lapa Sobe a Serra”, em Teresópolis. Foi nessa ocasião o seu contato mais íntimo com a cidade, certo?

Exato; conheci a cidade graças ao evento. Adorei ter sido convidado. Quando fui chamado pra ir a Teresópolis, achei que ia encontrar uma cidadezinha assim, simples, simples. Depois, imaginei que a cidade não suportaria a estrutura que se propôs a oferecer. Cheguei lá e o que vi foi um baita de um evento. Além disso, a proposta era inteligente: já que o teresopolitano não desce, a cidade do Rio vai ao interior. A repercussão, a animação da galera, o envolvimento das pessoas...foi tudo maravilhoso.

O evento ficou na memória dos teresopolitanos durante meses.

Pois é! Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o trabalho das réplicas dos Arcos, das fachadas, que ficaram maravilhosas. Fiquei muito feliz de ser o garoto-propaganda. Há essa coisa interessante de conhecer o interior – são culturas diferentes, regiões diferentes. É uma experiência muito rica.

 

E na tua memória? O que ficou?

Apesar de eu andar um pouco esquecido, a cidade como um todo ficou guardada em mim. Eu até cheguei a falar pra Rachel que queria morar em Teresópolis. Eu não diria morar, necessariamente, em um sítio, mas numa casa com quintal...

Pra viver uma vida diferente, longe do agito da cidade grande...

Pra viver a minha vida, de certa maneira. Eu nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, entre Madureira, Marechal Hermes, Cascadura. Meus pais casaram e foram morar em Cavalcante. Fui criado com aquela coisa de andar descalço no quintal, de subir nos pés de fruta, de brincar de polícia e ladrão, pique-tá, brincar de médico...eu brinquei tanto de médico que me casei com uma médica!
Teresópolis me fez lembrar esse tempo “pé no chão”. Fiquei tão à vontade lá que desci do palco no meio do “Lapa Sobe a Serra”, pra me juntar com a galera. Não me contive e caí na folia. Eu gosto. Queria ter a oportunidade de voltar lá. O aconchego da cidade me chamou a atenção.

Queria falar da dança para você de uma maneira um pouco mais filosófica, como algo que dá sentido mesmo à vida, como uma tomada de consciência de cada parte do teu corpo, a partir da exatidão dos movimentos...como é dimensionar o espaço da dança no teu corpo e na tua vida?

Olha, se não fosse a dança na minha vida...eu não sei como seria. É o que tem me ajudado, por exemplo, nesse momento. Na verdade, ela permeou a minha vida toda, em momentos de muita dor. A dança sempre foi minha carta de alforria. Me libertou e me trouxe para um mundo diferente, para uma profissão diferente. Eu era funcionário público, tinha uma estabilidade profissional. Deixei tudo de lado pra dançar. Tinha meu espaço profissional, em um cargo de chefia, e abri mão disso. Não que eu tenha elaborado minha vida para isso. Eu julgava que seria médico, faço vestibular para direito, me formo em pedagogia e acabo dançarino! Então, foi uma trajetória imprevisível, mas me vejo de certa maneira utilizando todas essas profissões, essas experiências, na minha atividade, não é? A dança – e nenhum outro emprego - me deu uma consciência de cidadania – me fez pensar sobre o que o cidadão pode produzir para a sociedade. Pode parecer piegas, mas é minha coluna vertebral, meu eixo. Hoje me preocupo com a minha alimentação, com minhas horas de sono, tenho uma disciplina de vida gerada a partir da dança, que é o meu cartão de visita, minha fonte de renda, meu bem-estar, meu divã. Hoje, principalmente, ela tem sido o meu divã.
A dança me acompanha de uma forma inconsciente. Eu não planejava ser o Carlinhos de Jesus. Com 10 anos de idade, eu pedi pra entrar numa escola de dança e meu pai me matriculou numa academia de artes marciais...

Tal como acontece com o personagem do filme Billy Elliot.

Exatamente! Mas, mesmo tendo ido para a luta, ali já nasceu minha primeira ligação com a dança, que adormece. Depois volta como uma forma de terapia, para espairecer, já que meu trabalho era muito pesado; lidava com menores infratores. Eu já estava com a Rachel, meu segundo casamento, e a coisa foi tomando um vulto, até que pensei “peraí; vou fazer isso profissionalmente”. Comecei a dar aulas entre políticos e artistas. Meu primeiro recebimento de um dia de trabalho foi equivalente à metade do meu salário. Chegou uma hora em que eu tive que optar – e a dança começou a crescer, sobretudo quando recebi um convite para ir para Nova York. E quando um funcionário público vai pra Nova York? Nunca, não é? Mas consegui convencer meu chefe, viajei trabalhando como professor da Elba Ramalho e, quando voltei, recebi outro convite, para o México dessa vez, para lançar a febre da época, meados dos anos 80, que era a lambada. Foi quando montei a primeira companhia. Aos poucos, fui virando o Carlinhos de Jesus. Rachel, a guerreira, disse pra mim “estou contigo”; eu arrisquei. Tinha um bom salário, um bom cargo, um certo status, mas “chutei o balde” e fui viver de dança. No primeiro mês, Rachel segurou as pontas. No segundo, já entrei com a minha parte.

Vamos retomar essa questão da imprevisibilidade da vida e da dança e falar da ligação que ela tem com teus ofícios anteriores.

A dança promove a liberação da serotonina, hormônio responsável pela hidratação da pele, pela libido, e atua na prevenção das doenças respiratórias, circulatórias, eleva a auto-estima; em resumo, quem dança é mais feliz. E tem uma questão psicológica também, já que na dança eu divido com você os erros e os acertos. Não me culpe, porque o erro é nosso.

Do erro sai um acerto?

Sim, a partir do entrosamento - o que as pessoas hoje quase não têm. Atribuo o sucesso da dança de salão em partes a isso. Com a loucura do dia a dia, as pessoas têm 2 ou 3 empregos e mil e uma atividade pra fazer. A dança proporciona uma hora de atividade com alguém – você vai dividir alegrias, vitórias e até as broncas -, e passa a ter uma convivência que os tempos de hoje não permitem.

Vale insistir nesse fenômeno do errar para fazer alusão ao texto sobre gafieira do livro “Banalogias”, do Francisco Bosco, que destaca, entre outras questões, o erro como o horizonte de todo dançarino.

Francisco foi meu aluno! Dançou anos e se apaixonou pela dança. E depois foi a Júlia, irmã dele, que começou a fazer aulas. Ele fala de alguns passos na dança nesse texto. Fala de mim. Ele se expressa no texto de uma maneira visceral, do ponto de vista de alguém que viveu a experiência da dança in loco.
É o que eu costumo dizer quando ensaio alguém para um número: não tem aquela de dizer “ih, para. Errei!”. Errou? Dali você já tem a introdução para um passo diferente. E hoje em dia você dividir isso com alguém é muito valioso. A outra coisa interessante é a questão dos papéis, diferentes para o homem e para a mulher, mas igualmente importantes para lograr um mesmo objetivo. Você faz uma coisa, eu faço outra, mas nós estamos na mesma estrada. O sucesso também é nosso. Isso tem uma importância, dá uma ideia de trabalho em equipe, de preocupação um com o outro – fundamental nos dias de hoje.
Inclusive eu tenho uma história com o João Bosco, pai do Francisco, muito legal. Quando jovem, eu pegava o carro do meu pai e saía com os amigos. E, a qualquer hora que estivesse dirigindo e tocasse aquela música “De frente pro crime”, a gente parava o carro, onde estivesse, abria as portas e saía dançando. Bastava ouvirmos o verso “tá lá o corpo estendido no chão!” para ter barulho de freada brusca na certa. Quantas multas eu paguei! Estou para montar um show com as músicas do João. E vou abrir com essa.

Agora partindo para esse seu lado empresarial, como foi a chegada do Lapa 40° na sua vida?

O fato de eu ter aberto o Lapa foi já minha intenção de estar sempre produzindo um diferencial na minha carreira. Não sou neurótico, mas quero fazer uma coisa diferente. Eu tenho um trabalho, um mérito por trás disso tudo. A primeira proposta era abrir uma academia lá. No meio do processo, acabamos desistindo e morreu a ideia. O amigo que desistiu da sociedade conhecia meus atuais sócios – jovens que adoram uma sinuca - que queriam abrir uma casa de sinuca. Foram até o lugar e constataram que não era algo para cinco mesinhas, mas um negócio enorme. Um deles disse que mais do que nunca era hora de procurar por mim. Vieram a minha casa e durante a conversa liguei a televisão. Como bom noveleiro, eu ficava dividido entre o papo deles e a novela. Até pareci esnobe. Mas voltamos a falar no assunto na semana seguinte e propus: “academia não. Vamos abrir uma gafieira”. Meus sócios são empreendedores à beça e às vezes tenho que dar uma segurada neles - e, como sou aquariano, achava, até então, que eu é que tinha os pés nas nuvens. Para você ter uma ideia, a gente era tão inexperiente que no dia da inauguração não tinha caixa para receber. As pessoas iam embora sem ter a quem pagar! Alguns ficavam encabulados e perguntavam se era de graça (risos). No dia seguinte, fomos selecionando alguns amigos que toparam trabalhar só para aquela noite e depois, claro, contratamos os funcionários. Hoje o Lapa 40° é uma febre.

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