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ENTREVISTA: GEORGE ISRAEL

  • 07/09/2017

Quem nunca cantou a versão extraoficial de “Pintura Íntima”? E quem nunca se emocionou ao ouvir o refrão “Depois de você, os outros são os outros. E só”?
Ele é o componente da banda Rock Pop que quebrou um dos paradigmas do gênero inserindo um instrumento de sopro à frente, abrindo mão do tradicional formato ”power trio”. Mas é power. E que trio. Ele está presente nas baladas desde o anos 1980 e toda a obra musical que construiu – ou ajudou a construir - ultrapassa barreiras e segue sendo perene.
Estamos falando do músico George Israel, que fez história ao lado de grandes nomes como Cazuza e, claro, ao lado da banda Kid Abelha.

Magazine Turismo: A sua relação com a música é intensa e os espectadores podem perceber isso quando você está no palco. E não é de hoje. Como começou a história musical da sua vida?

George Israel: Eu não tinha família especialmente de músicos, mas minha avó tocava piano e eu ficava ouvindo-a de vez em quando. Ao longo da minha infância, tive acesso a vários insrumentos, como xilofone, flauta e etc. O que me lembro, como um marco na minha vida, foi o filme Help, dos Beatles, que eu assisti com 6 anos. Saí do filme (vi duas ou três vezes) e comprei um LP, que tenho até hoje. E a partir dali comecei a me ligar mais em música, ouvir rádio. Depois, com 10 anos, gostava de som de festa, comecei a colocar meus compactos pra tocar.
Quando tinha uns 12 anos, ganhei um violão e comecei a ter aulas. A primeira vez que me apresentei no palco foi com 14 anos, com uma música que entrou em um festival da escola. Esses foram os primeiros passos da minha estrada.

 

Como instrumentista, quando foi que percebeu que poderia compor o trio do Kid Abelha com o seu sax? Como foi esse insight?

Em meados de 1980 fiz um mochilão pela Europa e fiquei seis meses viajando. Onde tinha um som ao vivo, eu parava pra assistir e conhecer. Um dia, vi uma banda tocando na Alemanha, num porão. Toquei umas coisas na guitarra e um dos músicos tinha um sax também. Entre uma conversa e outra, ele me disse que era interessante ter esse instrumento na formação da banda porque virava um curinga.

Eu me animei. Lá mesmo, viajando, comecei a fazer aulas com um professor super gentil que me deixou um sax emprestado durante um mês. Quando voltei pro Brasil, já tinha uma banda com o Frejat e com o Bruno Araújo (que tocou com o Legião Urbana depois) e assim começou a sequência de varias bandas. Fui conhecendo um aqui, outro ali e um amigo em comum me indicou pra uma galera que estava levando um som. Eram o Leoni, a Paula Toller, o Beni e mais dois músicos. A Paula estava começando a tocar e compor com eles. Aí então começa a minha história com o Kid Abelha.

 

O Kid Abelha é uma banda tão querida e perene que arrisco chamá-la de "patrimônio" mesmo do nosso país. Apesar de ter estourado na geração 80's, não há um jovem hoje que não saiba cantar "fazer amor de madrugada". Conta um pouco dessa trajetória: as dificuldades, as maiores alegrias e os momentos mais marcantes dessa carreira que não tem fim - ainda bem!

O Kid surgiu em um momento em que não havia muitas referências de bandas anteriores. No Rio, a primeira que vi foi a do João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Surgiam também nomes como Lulu Santos e Barão Vermelho, mas o divisor de águas foi a Blitz com o “Você não soube me amar”. A gente ouvia no rádio e percebia que estava diante de uma outra página da história da música, que tinha uma linguagem totalmente diferente do rock que se fez anteriormente. E tinha uma coisa pop muito forte.

Primeiro, veio o nosso show no Circo Voador. Depois, a surpresa de ouvir pela primeira vez  nossa música tocando na Rádio Fluminense.

Outro momento inesquecível foi quando fomos fazer o Noites Cariocas, no Morro da Urca, show que fizemos já com um disco inteiro pra apresentar. Pegamos o bondinho e, enquanto subíamos, víamos lá de cima uma fila enorme esperando pra nos assistir.

Na verdade, como todo mundo da banda fazia faculdade, a música a princípio era hobby e ninguém tinha muita pretensão.Não dá pra dizer que foi difícil, porque a gente não esperava nada, então tudo era lucro.


O cenário era propício para a chegada do Kid, certo?

Sim, muito. Acho que o fato de ser uma geração depois daquela da censura, da ditadura, de patrulha ideológica, fez surgir uma turma que chegou com mais liberdade, mais descontração, com chances de falar coisas mais diretas também. Veio uma avalanche de banda com bastante variedade, com o espectro bem aberto, que mostrou esse painel do que estava engasgado e tirou o atraso.

Apesar de toda essa leveza, porém, não estávamos desligados dos acontecimentos politicos. Lembro-me de um Rock in Rio que fizemos, na época em que o Tancredo havia sido eleito presidente. Foi no dia 15 de janeiro de 1985, e a gente saiu com a bandeira do Brasil, foi bem emocionante. Depois dos shows no Rock in Rio, tudo foi acontecendo, nossa projeção era muito grande. Sentimos que estávamos solidificados como uma banda conhecida. Mas ouvimos muito que íamos durar um verão só.

E estão aí, durando quase 40 verões!

É! Vivemos o momento da saída do Leoni que foi meio traumatizante na época. Fiquei bem triste com a coisa da cisão, assim tão de supetão. Mas depois foi um momento, pra mim, de ocupar espaço como compositor também. Comecei a gravar e compor coisas em casa. Começava também um momento diferente do Kid. Trocamos a formação da banda, colocamos percussão e mudamos os arranjos. Não ficamos pendurados no passado. Vivemos um recomeço e foi bem legal. Nessa história, resgatamos a música “Na rua, na chuva, na fazenda”, reconquistamos Rio, São Paulo e o Kid voltou a ficar muito forte. Fizemos uma turnê muito bacana e dali em diante tivemos uma carreira ascendente. Passamos pelo Rock in Rio em 2001, em 2003 vivemos o auge da nossa carreira, que foi quando lançamos o “Acústico” - disco que vendeu mais de 1.300.000 cópias, foi um momento de reconhecimento geral. Ali, definitivamente, nos demos conta de que tínhamos entrado pra história da Música Brasileira.

A primeira música que eu fiz com a Paula foi “Amanhã é 23”. Teve toda uma história de estarmos um pouco desacreditados com o destino da banda, muita gente achando que não teria uma continuidade. Mas a gente gravou no Natal, eu me lembro, e foi muito alto astral. A música fez muito sucesso e virou um estímulo pra gente continuar.

Também acho que a partir dali a gente adquiriu um respeito maior por parte da imprensa, principalmente a paulista,  que tinha uma implicância com o Kid por ser, talvez, pop demais. Mas essa era a nossa verdade. Então, mesmo depois de algum tempo, as pessoas que ainda duvidavam passaram a enxergar a obra em tudo que fizemos.

 

Com a formação do Kid, você ainda pega estrada?

Tivemos algumas interrupções. Em 2006, paramos por quatro anos e voltamos pra fazer a última turnê. Fizemos o DVD de 30 anos de carreira e agora paramos de vez, cada um por si. Mas estaremos sempre ali, nos encontrando nos discos, nos DVDs. O que importa é que a música continua sendo ouvida. As gerações mais novas ouvem mesmo que a gente não esteja fazendo mais show. Nunca imaginei que os amigos dos meus filhos iam conhecer a minha banda com a idade que eu estou! Eles mesmos ficam surpresos. É muito maneiro!

 

Há um lugar de descanso à sua espera na serra carioca. Mais precisamente, em Teresópolis. Como é sua relação com a cidade, desde quando está por lá e quais são os programas que mais gosta de fazer quando chega na cidade?

Teresópolis atravessa minha história ainda na adolescência. Eu tinha cerca de 16 anos e  subia a serra pra passar férias ouvindo discos com um amigo de som: o Frejat. Começamos a tocar, fazer as bandas, e o que marcou muito foi que eu compunha, assim como ele. Não era só tocar. A gente começou a fazer umas músicas. Embora nossa veia fosse roqueira, a gente sempre teve uma ligação forte com a música brasileira.

Outro momento que Teresópolis está na minha vida foi na gravação do disco “Meu mundo gira em torno de você”. Esse disco gravamos sem técnico, sem nada. Fomos pra minha casa em Teresópolis e levamos todo o equipamento, montamos tudo. Estávamos produzindo na minha casa e tivemos essa experiência muito bacana, meio Novos Baianos, de ficar juntos um mês gravando. Um sonho que, até então, estava só no nosso imaginário: do que era uma banda, de estar só fazendo música, jogando bola, almoçando e jantando juntos. Foi sensacional. Por acaso, esse foi o disco de estúdio que mais vendeu.

Gravei, também na minha casa, um dvd que vai ser um especial de TV em breve. A minha conexão com Teresópolis é profunda.

 

Você também toca um projeto seu e gosta de compor. Quais são suas maiores contribuições nesse sentido?

O meu lado compositor está lá no comecinho, até pela minha aproximação com o violão. Era sempre criando, mais do que copiando até. Acho que nem tinha tanta destreza assim, então o meu barato era mais o de descobrir umas coisas, fazer eu mesmo. Isso já era o destino de ser compositor. É muito bom poder ver que você faz uma música no teu quarto e de repente tem milhares de pessoas cantando.
Recentemente, Nelson Motta lançou um livro sobre algumas músicas marcantes da história da Música Brasileira e “Brasil”, música que fiz com Cazuza e Nilo Romero, está entre elas. Deixar uma marca como compositor é muito bacana, nunca imaginei que viveria isso.

 

2016 não foi um bom ano, segundo boa parte das pessoas. E pra você? 
O que 2017 pode esperar do George Israel? Conta pra gente seus principais projetos a realizar.

Há um tempo, comecei a tocar música eletrônica com DJ e foi dando muito certo. Fiz um projeto com o DJ Meme, chamado Solar, que estava decolando até que precisei parar à época fazer turnê com o Kid. Mas acho que fiz uns 60 shows por ano e ultimamente até mais, durante esse período.

Estou muito envolvido e, nesse momento, chegando ao ponto de misturar as coisas. Descobri que tem um espaço pra música brasileira na música eletrônica. Comecei a compor pra criar um material original. Então, esse ano está bem movimentado, cheio de novidades. Estou produzindo muito com o Tony Garrido e estamos preparando alguma coisa. Fizemos oito músicas juntos e dia desses tocamos na praia de Ipanema. Estou em um outro recomeço. E muito animado.

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