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José Trajano e a Mônica de todos nós

  • 07/09/2017

José Trajano nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de outubro de 1946 e foi fundador e diretor de Jornalismo da ESPN por 17 anos. É uma referência no jornalismo brasileiro, de posições firmes e bastante ideológicas.

Filho de Trajano e Nilza, o jornalista viveu uma infância no estilo campestre, em uma fazenda da família em Rio das Flores, no interior do Rio de Janeiro. Viveu boa parte de sua vida no bairro da Tijuca, próximo à sede social de seu clube de coração, o América, segundo time de boa parte dos cariocas.

Em março, José Trajano recebeu amigos de longa data para fazer o lançamento do seu primeiro livro, Procurando Mônica, na Livraria da Travessa em Ipanema. No livro, Trajano conta a história de um amor não correspondido.

E foi no Bar Salete, na Tijuca, no dia seguinte ao lançamento do livro, que conversamos sobre jornalismo, política, Copa do Mundo, futebol e, claro, a Mônica.

Robson Gonçalves - O seu livro tem várias passagens interessantes, que você relata muito aquela questão da simplicidade, da amizade verdadeira, que hoje não existe. Hoje, as amizades são movidas por interesses. No passado, na sua fazenda, com a sua galera, a inocência imperava mais e as pessoas se curtiam verdadeiramente. Você acha que eu estou exagerando?

Trajano – A tecnologia tomou posse da vida das pessoas. Todo mundo se comunica de um jeito muito diferente. Naquela época, as pessoas tinham que se encontrar fisicamente, e quando você encontra a pessoa fisicamente, a relação é outra. Marcamos onde? Ah, no parque tal, na praia tal, no cinema tal... hoje, eu posso conversar com os meus amigos, sem encontrá-los durante anos, só conversando através do Facebook, ou pelo celular. Há um esfriamento maior porque não estamos tão em contato. Eu, por exemplo, quando ia para Rio das Flores, se por acaso quisesse telefonar para o Rio de Janeiro, e eu estava na fazenda, lá não tinha telefone, eu tinha que ir até a cidade. A telefonista, a única do local, pedia uma ligação pra mim para uma cidade, aí, dizia assim: “volta às oito da noite que você vai falar”. E eu voltava às oito da noite. Seis horas depois! 

Robson Gonçalves - Tem uma passagem no livro que eu adorei, que trata da história com o Sócrates. Você morou com Sócrates?

Trajano - O que eu tive com o Sócrates foi uma amizade que começou lá em Florença. Eu já o conhecia, mais ou menos fazendo entrevista para a televisão, para a Folha de São Paulo, e quando ele foi pra Itália a gente acabou se aproximando. E quando você vai morar fora do Brasil, a saudade bate, e a gente tinha muita afinidade um com o outro. A gente gostava de beber, de falar de política, de conversar até tarde. E ele era um jogador diferenciado, era médico, inteligente, tinha boa formação, gostava muito de ler, de conversar, então a gente não conversava só sobre futebol, a gente conversava sobre a vida, e eu continuei amigo dele e o acompanhei até no leito de morte. Quando eu fui visitar, ele já estava em coma, e tal. Foi um grande amigo.

Robson Gonçalves - Em tempos de Copa do Mundo no Brasil, a gente vê que tem o lado da mídia que faz o jogo, e tem o outro lado da mídia que critica, e mostra os furos e até certa forma torce meio contra. Você está otimista com a Copa ou pessimista?

Trajano - Como muita coisa está acontecendo no país nesse momento, é um ano atípico, porque é um ano também de eleição, qualquer coisa virou Fla-Flu. Você fala qualquer coisa, você é Fla ou você é Flu, e faz inimigos ferozes. Então é difícil quando você se posiciona de um jeito. Eu não me agrego a esse movimento “Não vai ter Copa”. Vai ter Copa, óbvio. O que eu critico na Copa vem de longe. Claro que chegou um ponto agora que eu quero que dê tudo certo, mas o famoso legado não vai ter. Vai ter em alguns lugares. Houve um exagero de querer fazer a Copa em 12 sedes. Devia ser umas oito. A Fifa não exigiu 12 sedes, o Brasil que quis dar pro mundo uma ideia de grandeza. Nós podemos, estamos muito bem, crescemos e vamos mostrar ao mundo do que somos capazes. Então, a Copa é assim: eu acho que houve um exagero no número de sedes, não era necessário fazer estádios tão caros, alguns estádios podiam ser aproveitados. Tem um lado político que dá a impressão de que se você está falando mal da Copa, você está falando mal do governo da Dilma. Eu sou um cara que vota na Dilma, então eu tomo um pouco de cuidado nisso porque eu sou sempre um crítico, principalmente com os gastos envolvidos nos estádios e a troca da Copa por outras prioridades, mas chegamos ao ponto de que eu tenho que torcer pra que dê tudo certo.

Robson Gonçalves - Como foi a fundação da ESPN? Bateram na sua porta? Vieram te chamar ou você foi atrás?

Trajano - Me chamaram. Um amigo que estudou comigo e não entendia nada de esportes, mas era o cara que abriu o projeto. Aí eu comecei a bolar. Ficamos um ano como TVA e depois a relação ficou muito ruim e a ESPN ficou com tudo. E eu tinha a experiência da Editora Abril, que tentou fazer um canal de notícias, ficou um ano fazendo experiências, e nós botamos no ar do jeito que dava, assim não tinha jeito de voltar atrás como uma empresa como a ESPN, seria um fiasco. A ESPN era sócia da Abril. Aí fizeram a ESPN Brasil e jogaram na minha mão. Hoje trabalham lá mais de 300 pessoas. Indiretamente, mais 200.

Robson Gonçalves - Quem foi o grande jogador do América da sua época?

Trajano - Eu tive com ele hoje, Edu, irmão do Zico. É o maior jogador com a camisa do América.

Robson Gonçalves – E a Mônica?

Trajano – Eu conheci a Mônica num baile em Rio das Flores. Uma pequena cidade do estado do Rio de Janeiro. Na infância eu ia com os meus pais passar as férias na fazenda Forquilha que pertencia a minha família. Mas o dia 17 de março mudou a minha vida. Foi nesse dia que Mônica entrou no salão do Clube Recreativo. Esse foi o início de uma longa história de encontros e desencontros de uma paixão mal correspondida. Como todo amor impossível, Mônica me fez de gato e sapato. Você sabe de uma coisa? A Mônica mora em Teresópolis. Como a seleção vai se preparar em Teresópolis e vou fazer parte da equipe da ESPN que vai cobrir a Copa do Mundo, possivelmente devo ir a Teresópolis e quem sabe me encontrar com a Mônica.

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