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Lucinha Lins pelo tempo

  • 07/09/2017

Em uma manhã de quinta-feira carioca, a artista conta boa parte de suas histórias. Um detalhe: Teresópolis está presente na maioria delas.

Há muito mais ligações entre Lucinha Lins e Teresópolis do que poderia imaginar nossa vã filosofia. Com um sorriso arrebatador – o mesmo que recebe seus filhos João e Beatriz, um pouco mais tarde – Lucinha, casada há 28 anos com Cláudio Tovar, adianta: “Teresópolis faz parte da vida da minha família inteira”. E com uma intimidade peculiar que denuncia definitivamente  sua ligação com a cidade, acrescenta: “ali no Bom Retiro, depois que você passa pelo mercadinho Aurora, à esquerda, está o lugar que durante muitos anos foi nossa casa de verão”.

O nome de seu avô, Maurício Werner, consta em um livro que conta a história da cidade, como um dos “desbravadores” de Teresópolis. “Havia um casarão, que meu avô chamava de chácara. Começava na altura da Rodoviária e ia até a Rio-Bahia. Imagina o tamanho daquilo! Meu avô tinha um restaurante aqui no Rio, considerado na época muito bacana e muito do que era servido nesse restaurante vinha da chácara, fresquíssimo, de Teresópolis, de trem. Eu ouço essas histórias e fico encantada!”, conta.

A ligação com a cidade, na família de Lucinha, se estendeu mesmo por gerações. Com os pais e avós, a artista passou suas férias desde os tempos de escola, na casa de campo e de lá guarda muitas lembranças de histórias e de sensações. “Lá a gente tinha pomar, vaca - saudade da Pujuca, nossa vaca! -, cachorro e todo tipo de bicho possível. Nós tivemos a possibilidade de uma infância, até quase adolescente, com bichos em volta, com pato, com peru, galinheiro, ovo, geleia feita em casa, queijo, leite, manteiga, fogão a lenha. Ficávamos, mais do que nunca, com cara de gringo, porque eram aquelas bochechas vermelhas, cabelo branco espiga de milho e bem gordinhos. Teresópolis significava pra gente uma rotina especial. Aliás, acho que o coelhinho da páscoa só deixa ovos em Teresópolis; em mais lugar nenhum do planeta”.

Em seguida, tratou de conduzir também os filhos na história das viagens frequentes a Teresópolis. Durante nossa entrevista, João faz uma breve visita à mãe, que provoca: “Vocês patinavam ali, naquele terreno todo?”. João, veloz, replica: “Ali era terra e grama, mamãe. Não tinha como!”, divertindo-se.

Uma das quatro mulheres da família de cinco irmãos, Lucinha deu os primeiros passos de sua profissão e também de sua história com o cantor Ivan Lins...em Teresópolis!
“Foi lá que eu conheci o Ivan. Ele tinha ido jogar vôlei com a turma lá de casa. Eu tinha de 14 para 15 anos. Ele sentou no piano e não saiu mais. Graças ao Ivan, descobri que cantava lindinho! Acabaram as férias, nós começamos realmente a namorar. Passamos a frequentar ainda mais Teresópolis, já que os pais dele também tinham casa no Ingá. Então, Teresópolis fazia parte do dia a dia”.
Com Ivan, Lucinha conheceu o grupo Jaceguai 27 (nome de uma rua na Tijuca, no Rio de Janeiro, onde um grupo de adolescentes se encontrava toda sexta-feira à noite na casa do psiquiatra Aluísio Porto Carrero, um exímio violonista). Dali, nasceu o MAU – Movimento Artístico Universitário. “A grande meta eram os festivais –um grande barato que parava esse país de norte a sul. Você torcia por um ilustre desconhecido simplesmente porque você gostava da música dele. E lá fomos nós, a turma da Jaceguai 27, se inscrever nos festivais. Nós mesmos cantávamos. Eu sou fruto disso tudo. Eu era uma das mascotes, das mais jovens. Dali saiu Ivan Lins, César Costa Filho, Aldir Blanc, Gonzaguinha...meu deus do céu, quanta gente!”

Dentre as lembranças mais especiais que a artista guarda de suas férias em Teresópolis, encaixam-se os doces carnavais, que reunia jovens e crianças (estas participavam das matinées) nos bailes do Higino, lugar que também foi palco, durante muitos anos, dos Festivais de Cinema e já recebeu artistas como Joana Fomm, Fernanda Montenegro, Glauber Rocha e o saudoso Jece Valadão. “Você sabe o que são 18, 20 frangos só pra hora do almoço? Volta e meia isso acontecia. No carnaval dormiam 50 lá em casa. Era maravilhoso. Passar do ‘Salão Infantil’ para o ‘Grill’ era uma coisa da maior importância, porque aí você era adulto! Até uma certa idade você não podia entrar no Grill. Carnaval no Higino já foi concorridíssimo!”, relembra, com saudades dos tempos glamourosos de Teresópolis.

Lucinha, uma das artistas mais completas do cenário brasileiro, parece ter ouvido atentamente os conselhos da canção que diz “ é preciso estar atento e forte” e confessa que, quando se deu conta, era atriz.  “A vida é muito engraçada. Quando eu era criança, me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse. Eu dizia: bailarina. Mais tarde eu dizia que ia ser médica. Aí eu fui cantando. E pensei: bem, então vou virar cantora. Aí virei atriz”, conta, sorrindo.

E foi longe, com a consciência de que ter percorrido esse caminho não foi nada fácil. Lucinha admite que teve sorte – até porque, para ela, ninguém nasce para o fracasso. Reconhece, porém, que lutou muito por tudo o que conquistou e ainda conquista. “Eu estava atenta quando a estrela brilhou. Acho que foi isso. Eu aproveitei todas as oportunidades, até pela ingenuidade, pela falta de amadurecimento. Inconsequente? Nunca! Eu quis que aquilo acontecesse. Eu fui pegando, fui abraçando, fui querendo, fui fazendo, fui estudando, fui crescendo”.

A primeira vez que Lucinha ganhou um cachê na vida – sim, essa lembrança também está em sua memória detalhista! – foi fazendo um contracanto no disco de Agostinho dos Santos. “Eu fiz um tchururu, um dabadabadá e, na época, tinha entre 16 e 17 anos. Fui virando profissional sem saber, trabalhando com a minha voz. Bom, eu também cantei em Festivais, eu também ganhei”.

Nesse momento, nosso papo é interrompido por Lili, a gata vencedora, que desce as escadas ronronando, meio desconfiada. Mas Lucinha adverte: “nem adianta fazer graça com ela, porque ela não é simpática. É muito velha, fruto de Teresópolis. Estranhíssima, pensa que é cachorra!”. E começa a nos contar quando e como Lili entrou para a família. “Ela nasceu de uma gata selvagem. Negra, linda. A minha mãe fala com bicho. Qualquer um. Se ela for num pasto, encosta na porteira e vem o rebanho. Uma coisa linda. Havia uma gata grande, do mato, e os nossos filhos, os netos da minha mãe, muito pequenos. Beatriz era caçula. Ela dizia: não quero ninguém com essa gata.
E era o seguinte: quando minha mãe ia pra Teresópolis a gata aparecia. Um dia estávamos almoçando e a empregada veio dizendo: Dona Edith, aquela gata brava está no meu quarto!
Mamãe foi no quarto de empregada, a gata chorava quando viu a mamãe...e vocês vão ouvir uma linda história de amor, com final feliz e triste ao mesmo tempo. Mamãe foi na lavanderia, pegou um pano pra aconchegar a gata, e disse: eu estou aqui. Voltou pra mesa e disse que ela estava tendo filhotes. O fato é que essa gata morreu de parto e deixou 5 coisinhas, de olhinho fechado, e a mamãe ficou muito triste. Todos ficamos muito tristes. A gata foi enterrada com todas as honras e chorada por todos os netos. E os filhotes dificilmente sobreviveriam. Tinham acabado de nascer. Lala ,Lelé, Lili, Loló e Lulu foram os nomes escolhidos e cada um dos netos menores era encarregado de tomar conta do seu gato. Claro que 24 horas depois já tinha um mortinho. Depois, outro. Lili não morreu e, por acaso, era da minha filha Beatriz. Ela era mínima. Com dois meses parecia que tinha uma semana. Veio pro Rio um dia e lá se vão 17 anos. E esta é a bela história de Lili, senhoras e senhores”, encerra Lucinha, tentando chamar a atenção da gata antipática – que deve ter lá suas razões para ser assim.

Teresópolis exerce ainda, na trajetória da vida da artista, um poder como fonte de inspiração, lugar de recarregar as energias. Tanto para ela como também para Ivan Lins. Parece que foi em Teresópolis que nasceu um dos mais belos trabalhos do compositor, o disco Somos todos iguais nessa noite. Segundo Lucinha, “Ivan se mudou durante um tempo para a cidade com o Vitor Martins, e ali nasceu um trabalho muito bonito”.

Em seguida, digo a Lucinha que lembrar dela é lembrar de Saltimbancos Trapalhões, da montagem do clássico de Chico Buarque A Ópera do Malandro e do disco Canção Brasileira, que gravou com músicas de Sueli Costa, ao que ela, animada, replica: “Estava há 20 anos sem cantar e fui convidada pra fazer um trabalho pra uma empresa de mercados capitais, com o tema resgate. A empresa queria algo para presentear seus clientes no fim do ano. Sugeri trabalhar com Sueli Costa, uma das maiores compositoras vivas que temos. A surpresa de tudo isso foi quando o Paulo Mendonça me ligou, eu estava indo para Teresópolis, na serra, e aí a ligação picotava e eu dizia: Paulinho, eu ligo pra você quando chegar em casa. Parei no Pastel (risos) e liguei pra ele”.

A notícia que Lucinha recebeu era a de que seria responsável por todo o processo de gravação do cd: deveria cuidar de absolutamente tudo. A resposta? Claro que foi sim. “Eu produzi, eu organizei, eu fiz o repertório, eu cantei, eu enlouqueci e nós fizemos Canção Brasileira, que foi o titulo escolhido. Apanhei muito, porque eu tinha que chegar em 13 músicas. Trabalhei com as letras, sentada no chão, comecei a fazer uma história. Inventei uma personagem. Já tinham 5 ou 6 absolutamente escolhidas, entre elas coisas que quase ninguém conhecia nisso tudo. Consegui montar, fazer uma história maluca (eu era a personagem de mim mesma). Cheguei a 17 músicas e não tinha mais como diminuir. Ficou amarrado de uma maneira que bateu em todo mundo. Passado o fim do ano, eu ganhei de presente o fonograma. Era pra ser um brinde de fim de ano da empresa, uma coisa fechada. Me empolguei, entrei em algumas gravadoras, eu tinha um trabalho pronto. E a Biscoito Fino distribuiu. Fiquei muito feliz com isso. Eu vejo esse trabalho, pra quem não cantava há tanto tempo, como um embrião muito elegante de uma possibilidade de sair cantando por aí”.

Não é nem preciso dizer que a dificuldade que Lucinha teve para chegar às 17 canções de Sueli no projeto do disco, diante de tanta preciosidade, tenho eu para conseguir compilar quase uma hora e meia de uma conversa que parece não merecer um dedo de edição. Mas a diagramação tem limites: o tamanho da folha.
 

Hoje, Lucinha Lins está no elenco da novela Vidas em Jogo, da Rede Record, onde vive a doceira Zizi. No teatro, Lucinha faz parte do espetáculo Palavra de Mulher, uma espécie de musical com canções de Chico Buarque, que entra em cartaz em outubro no teatro Cleyde Yáconis em São Paulo, com Tânia Alves e Virgínia Rosa.

Cozinheira e também dona de casa, Lucinha assegura que vive uma vida normal, apesar de célebre, inclusive com tempo de viver a emoção de ser avó, depois do nascimento de Tito e Lui. ”Quando se é avó você se depara com uma emoção que nunca viveu parecido, quando você acha que vai ser mais uma super especial. Não. Ela não tem tamanho”. E completa: “com a chegada do primeiro neto, por exemplo, fiquei surda por alguns segundos: o mundo parou pra eu conhecê-lo. Os próximos netos que virão, e eu desejo todos com muito amor, vão ser emoções ainda diferentes“.

E de todas as suas memórias, talvez uma das mais marcantes para quem a ouviu é a da presença e do carinho que existe em sua família. “Eu estava em uma estreia de espetáculo em SP. E no dia meu pai me liga no meio da tarde dizendo: eu não vou conseguir chegar, minha filha. Me perdoa! Ele era um homem indignado, me pedindo perdão, porque não ia conseguir chegar na minha estreia. Ele só podia ir no dia seguinte. E eu disse: pai, não tem problema!. Ele estava desesperado. Isso é uma característica dos meus pais, da minha família. É na alegria e na tristeza sim. Presença. Estamos aí pro que der e vier. Estar juntos é uma das coisas mais importantes da minha família. Saudades do meu pai”.

Dono de 87 anos muito bem vividos, Cláudio, pai de Lucinha, faleceu há 8 meses e ainda enche os olhos tão azuis de sua filha de emoção, saudade e, principalmente, de esperança. 

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