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Marcos Palmeira: o cuidado com a terra e o amor pela arte

  • 07/09/2017

Nem só de novelas, hoje, vive Marcos Palmeira. Conhecedor e amante da terra, o ator falou com a equipe da Magazine Turismo sobre sua trajetória e a maneira como seu outro ofício, ligado à agricultura, o reconduziu por caminhos já conhecidos, mas distantes, e o fez repensar questões sobre a própria vida. Filho de Zelito Viana – cineasta atuante em um dos movimentos culturais mais importantes para a atividade cinematográfica no Brasil, o Cinema Novo -, Marcos é fã de carteirinha da vida.


Magazine Turismo: Apesar de o seu trabalho como empresário no segmento de alimentos orgânicos estar ganhando cada vez mais destaque, é impossível desassociar você do artista que tem dezenas de filmes, peças de teatro e novelas na bagagem. São muitas histórias para contar, não é mesmo? Então, de modo bem direto: TV, cinema ou teatro? Qual é a sua preferência (se é que existe)? E por quê?

Marcos Palmeira: Adoro todos os veículos, mas por ter nascido dentro do Cinema Novo, tendo que escolher, escolho o cinema.


MT: Normalmente, todos nós somos reconhecidos por rótulos. No cenário artístico, esse enquadramento é ainda mais rigoroso. E aí temos aquelas conhecidas classificações que elegem os atores a partir dos gêneros: um é o cara perfeito pras comédias; a outra, ideal para encarar papéis dramáticos. Mas, observando sua carreira, é possível notar que você já interpretou os mais variados papéis nos mais variados trabalhos, desde “E aí...comeu?” a “Villa-Lobos”, passando por “Dom”, que é uma releitura de um monstro sagrado da literatura brasileira. Você não é o artista da comédia ou do drama. Como é transitar por tantos gêneros e, portanto, ambientações e experimentações tão diferentes como ator?
Marcos: O primeiro longa-metragem em que atuei foi com um papel cômico. Mas a comédia voltou à minha vida nos últimos anos. Com o tempo, tenho conseguido diversificar cada vez mais os tipos dos personagens e quebrar paradigmas, o que é muito legal. A parte boa de amadurecer na frente das câmeras é exatamente garantir certa autonomia para aceitar ou recusar trabalhos, independente do gênero. Se eu amo atuar até hoje, isso é reflexo das escolhas que fiz ao longo da minha carreira.


MT: Você diz que, quando não está gravando, está cuidando dos negócios na sua fazenda, em Teresópolis, ou no armazém, que fica no Rio. Como foi e como é conciliar a vida de empresário e ator? Porque há aí, nessa “entressafra”, uma vida pessoal para administrar também, certo? Há momentos de escolhas ou renúncias?

Marcos: O lado empresarial é burocrático. Já tive muitos problemas de gestão, estou aprendendo, me capacitando. A vida entre estes dois mundos é mais ou menos assim: decora texto, demite alguém, contrata alguém, conversa com administrador, grava cena. Não foi algo que planejei. Foi crescendo.  Aos 50 anos, sigo um exemplo que aprendi há 20 anos, quando me chamaram para um filme, e a atriz que faria comigo alegou que não poderia porque estava em crise no casamento. E eu pensei: “Mas como assim, misturando vida pessoal com trabalho?”. Durante muitos anos, eu abri mão da minha vida pessoal completamente pela carreira. Não me arrependo, mas hoje penso duas vezes. É preciso ter equilíbrio. Tento seguir essa máxima, mas às vezes recebo um convite e me apaixono. Sou muito operário.

 

MT: E nesse meio tempo, por mais que sua fazenda esteja localizada na área rural, você acaba mantendo uma relação com a cidade de Teresópolis, não é? Quando vai à cidade, quais são os lugares que gosta mais de ir?

Marcos: Adoro Teresópolis. Só lamento que há anos estejamos entregues a péssimas administrações. A cidade merece mais! Adoro ir ao “Sancho Panza” do meu amigo Dato, ouvir boa música, comer um leitão do ”Cati-Coco”... adoro o agito do centro durante o dia... uma cerveja artesanal na “Vila St. Gallen”. 
Adoro fazer compras no “Abelha”. Conheço a Cida desde que vim pra essas bandas e seu pai foi um grande parceiro!

MT: Há quanto tempo está morando na serra? Você se sente teresopolitano?
Marcos: Eu me divido entre a fazenda e meu apartamento no Rio. Me sinto parte dos dois universos e consigo me adaptar bem a ambos.
 

MT: Do seu avô, você diz que herdou o contato com a terra. E ao seu pai, deve o contato com os índios. De acordo com a sua fala no vídeo sobre o Vale das Palmeiras, ter a fazenda chegou com a necessidade de algo que o conectasse novamente. Mexer com terra, estar em contato direto com a natureza, colher e plantar, ver nascer... tudo isso me parece mais do que um comércio ou um negócio. É uma iniciativa, uma militância por uma causa. Quando exatamente surgiu a ideia de começar a tocar o empreendimento Vale das Palmeiras? E como foi esse início?
Marcos: Como você mesma adiantou, eu sempre tive contato com a terra. Cresci dentro da fazenda de cacau dos meus avós, na Bahia, daí veio essa vivência rural.  Comprei a fazenda em 1997. A princípio, eu queria lidar com gado e leite. Nunca havia pensado em  hortaliças. Na fazenda, já existia uma produção convencional de verduras e eu me apaixonei. Foi então que eu percebi que os produtores não comiam aquilo que plantavam e voltei os olhos para a questão do agrotóxico e optei por investir na cultura orgânica.
 

MT: É um fato incontestável: a relação do homem com a natureza está entrando em colapso. Não soubemos ao longo do tempo, talvez, nos respeitar. E, agora, recebemos a resposta bruta dos fenômenos naturais, que parecem querer nos alertar para um novo olhar e retomar um lugar outrora adquirido. No seu pedaço de terra, onde “quem manda é a natureza”, a sensação que se tem é que o equilíbrio, de fato, está em dia. O que você faz para manter esse equilíbrio?
Marcos: Sou um cara comprometido com a vida. Tenho vários polos de atuação que fazem com que eu esteja sempre conectado a várias coisas. Mas tudo está conectado comigo, com a minha verdade.

 

MT: O Nêgo, dono de outro patrimônio imaterial que temos no circuito Terê-Fri, que é o “Jardim do Nêgo”, durante uma entrevista me falou sobre o aspecto filosófico do projeto dele e citou o consagrado filme “Muito Além do Jardim”, com o saudoso Peter Sellers, onde essa questão sobre a intensidade da relação entre o homem e o seu jardim vai muito além de apenas regar as plantas e cuidar para que não proliferem doenças. 
De certo modo, o que você tem também é um imenso jardim. Em algum momento esse jardim tem te proporcionado algo que vai além de uma atividade rotineira, como saber esperar a hora da colheita, saber plantar, cuidar para não perder, enfim, questões que vão ao encontro da gente na trajetória da vida?

Marcos: Minha visão mudou, sim. Comecei a olhar alem da plantação e a prestar atenção na terra e sua qualidade, que reflete diretamente na saúde do ecossistema e consequentemente nas plantas que cultivamos nele. Além disso, passei a ter uma preocupação de respeitar todos os seres vivos presentes nestes ecossistemas. Sonho com um dia em que viveremos num mundo sustentável e que a agroecologia se multiplicará pelo país. Me coloco sempre às ordens para dividir esse  conhecimento e estou sempre disposto a aprender mais com a vida e com as pessoas.

MT: Esse ano está sendo mais um período de intensa atividade entre a fazenda e a TV. Você está encarando seu primeiro vilão na nova novela da Rede Globo, depois de ter feito o primeiro filme politicamente incorreto há alguns anos, sob a direção de sua irmã. Ainda que no espaço da ficção, o que se aprende com os vilões e o politicamente incorreto?
Marcos: Em “Babilônia”, estou fazendo o meu primeiro vilão em novela e acho que mais do que aprender com ele quero que o público aprenda. Meu papel é de um político corrupto e espero que a novela acabe com as grades da prisão se fechando, como deveria ser no país, mas não é. O mais difícil para mim está sendo decidir em que político bandido vou me inspirar. São tantos...


MT: Quais são seus planos pra 2015 além da novela?
Marcos: A novela acaba tomando uma parte imensa da agenda, mas penso em uma peça infantil e uma possível nova temporada de “A Segunda Vez”, no Multishow. Além disso, continuar focado na Fazenda e no Armazém (Vale das Palmeiras, lojinha de orgânicos no Leblon, Zona Sul do Rio, que, em 2015, completou dois anos).

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